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tudo se foi, meu bem. o viço, a vontade, o argumento. todos aqueles que eu inventava pra te manter por perto.acontece que hoje nem vontade de argumentar, dá. já tem 15 dias e minha boca queima, o coração engana e daí? cadê você que nunca esteve?
antigamente nós precisamos
hoje, não precisávamos mais

amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.Carlos Drummond de Andrade, no livro “Claro enigma”. 1951.

O rio

Ser como o rio que defluiSilencioso dentro da noite.Não temer as trevas da noite.Se há estrelas no céu, refleti-las.E se os céus se pejam de nuvens,Como o rio as nuvens são água,Refleti-las também sem mágoaNas profundidades tranqüilas.(Manuel Bandeira)

.: copycat :.

o que eu excluí de mim
que mora em você?por que tua existência insiste
em me apontar o que não sou?não avanço, só cedo.
não temo, só dôo.e caminho, pendente.
a gente perdeu tempo
ou o tempo se perdeu da gente?
pira
chora de amor
no meio da gira

saudade

saudade é a memória que escapa pro momento presente
mas nunca materializa,
só faz sentir

.:nós:.

um nada incrementado
o bolo confeitado
de plástica aparência
tua pontual ausência
paisagem no retrovisor
Salve-se quem quiser, perca-se quem puder!
--
Paulo Leminski
O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os…
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!… Não foi de jeito…
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde…
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

Manuel Bandeira

O mundo inteiro é um palco
E todos os homens e mulheres não passam de meros atores
Eles entram e saem de cena
E cada um no seu tempo representa diversos papéis.William Shakespeare

.: perdão :.

há quem diga que o perdão
é só uma grande perda

.: reboco :.

nada permanece
tudo vira pómas pensa que, por milagre do Amor
tudo que acaba, um dia existiu.cada vez que um átomo se conecta.
cada vez que uma célula, define,
junto a outra, o papel perfeito,está fazendo Amor.Que do pó nasça a Vontade
de, por um segundo-infinito, Manifestar. Para ser Vivo e Presente,
basta não estar morto.Respira, olha em volta e vê
que no templo Sagrado da Vida,
de Amor é o reboco

.: (re)fluxos:.

Jamais (só) da boca pra fora
Apenas da alma pra dentro

.:: confronto :.

não sei se estou no céu
ou no inverno
Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o furacão quererá lhe impor.
Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo.
Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.
Não deixe que a estupidez se imponha.
Defenda-se.
Contra a estética, ética.
Esteja sempre atento.
Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.
Ria ostensivamente.
Tire sarro: a direita é mal comida.
Será imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.
São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.
Diga para o lado bom dia, por favor e obrigado.
E tomar no cu quando o solicitem de cima.
Dê tudo o que tiver, mas nunca sozinho.
Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.
Lembre que os artistas serão sempre nossos.
E o esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha.
Tudo vai ficar bem se você me ou…

.: eu te amo :.

não quero que passe
vem, me ultrapasse.

.: eparrei :.

quando o medo silencia,
o vento me acaricia.brinco com as palavras,
o corpo relaxa, se encaixa no mundoa tensão passa, atenção me respira.lembro de você e
percebo o coração baterrelembro quem sou,
que não preciso Temero Amor está aqui.
ele sou eu e ele é você.como pude me esquecer?

.: dia dos pais::.

Quando eu era criança a gente fazia cinzeiros de argila pros pais.Hoje basta acender um cigarro que somos SODOMIZADOS por olhares

.: abuso :.

quem tudo quer,
nada tem.o usufruir é eterno.
o abusar, apenas uma vez
pra nunca mais

.:: Po(her)esia ::.

E desde quando
Escrever poesia
É só
Quebrar
Frases?

.: passado :.

o passado interessa apenas
para abrigar os (me)moráveis

passou mais tempo
pensando em
como deveria se sentir
do que sentindo





.: morte-vida :.

a poesia
me matou

a poesia
me curará

.: rigor :.

austeridade só fica bonita
como um traje de ocasião,
útil apenas em momentos
bem específicos

_o_

"é só abrir", disse o coração.

.: vem :.

delícia é saber que nesse exato momento você sabe que estou pensando em você, mais uma vez.

feliz de sentir que também está pensando e mim, ciente e contente de que somos e sempre seremos isso: sonhos, pensamentos, desejos...

amores pré-sintonizados, recriando o universo de uma forma única. pequenos e imensos prazeres acompanhados de bons vinhos, baforadas e sorrisos cúmplices, abobalhados.

me explica por que é tão forte, que eu te mostro que é verdade

.: se vira :.

vir a ser
adulto

vira ser,
adulto.

.: desobrigação :.

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acolher com prazer e dedicação
as pessoas sinceras e de boa vontade,
sobreviventes inocentes do amor e do agora,

e estas são bastante

para não perdermos tempo
correndo atrás dos que nos voltam às costas
por motivos fúteis,
de amor próprio ou de inveja

.: livre :.

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no meio da escuridão, a mensagem daquele que sempre sabe quem tô:

"Toma este vídeo: Pranto Livre. É da Elza."

mal cliquei e me vi chovendo.
começou garoa de verão e
virou tempestade.
pancadas de chuva.

em cada trovoada uma dor,
uma rajada de culpa.
em cada gota, as sujeiras dos cantinhos
deste coração partido.

"Não há notícia ruim que não acompanhe um certo alívio"
sussurrou-me aquela voz.

com gosto salgado nos lábios,
sorrio ao perceber que sou feita de amor,
o melhor tempero paras palavras que virão da minha boca.


chora, desabafa teu peito,
chora, você tem o direito
se tratando de amor,
qualquer um pode chorar
não se envergonhe do pranto, que é
privilégio de quem sabe amar
quem não teve amor nunca sofreu,
e desconhece o que é agonia
abra o peito e deixe o pranto livre como eu.
ah, desabafe a melancolia








.: pinóquio :.

finge que não, mas mente,
com a convicção cirúrgica necessária
para convencer qualquer coração idiota como o meu,
sedento por qualquer (in)verdade.

Enxergo a cada dia meus erros e incompletudes,
mas isso não muda nada:
te enterro de novo, de novo, e de novo; quase todos os dias.
e hoje você nem mais existe - talvez nunca tenha existido.

.: como pôde? :.

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madrugou e minha alma fica alerta, procurando teu sinal.
nossos horários sempre foram outros, os nossos. vontade de cantar toda bestinha, celebrando o universo que mora nos teus olhos; sonhando em me banhar no perfume daquele espacinho atrás da tua orelha, que já nasceu deixando saudade.
a música anestesia como goles de marasmo, e me joga novamente na encruzilhada do querer: devemos seguir a verdade do coração, ou ceder ao medo fingindo em trocas de migalhas? sinto escorrer no rosto a pergunta que ainda me acorda no meio da noite:
como pôde?

.: desterro :.

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em 2001 abri este espaço com a rudimentar consciência de que, por meio da escrita, de alguma forma, eu me encontraria. Tive periodicidade na escrita de um "diário" por poucos anos, e a maior parte das publicações que fiz foram apagadas ou rascunhadas ao longo dos anos, por "vergonha alheia" daquela do passado, pelo receio da super-exposição e principalmente por não comunicar mais o que acho importante ser registrado. mas eu ainda estava aqui.

inhaí que os anos passaram e nesse mundo de ilusões - onde a gente projeta tudo que acontece com base nos acontecimentos externos -, o finado Orkut, facebook e as redes sociais todas seduziram-me, ocupando o tempo que antes eu aqui investia.

o propósito de estar aqui, 15 anos depois, é conciliar a disciplina dos meus estudos diários, com reflexões e aprendizados. Também é exercitar a percepção da clareza, sem receio de expor minha "verdadeira" opinião momentânea, e com muita sorte, atrair pensamentos que venham a co…

.: verdade :.

"Tenho a impressão de ter sido uma criança brincando à beira-mar, divertindo-me em descobrir uma pedrinha mais lisa ou uma concha mais bonita que as outras, enquanto o imenso oceano da verdade continua misterioso diante de meus olhos”.

(Isaac Newton)

:: kundalini ::

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:: receita ::

pernas para o ar
em grama de sol imenso.

beijos com risinhos
broncas com carinho

o agora
e você

pelo menos
três vezes ao dia.

.: amor :.

Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh'alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
A luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte."

Elizabeth Barrett Browning
(tradução de Manuel Bandeira)

.: o mal :.

“o mal é a falta de empatia. o mal são os olhos cegos e os ouvidos moucos. o mal é a desatenção e o autocentramento. o mal é aquilo que sinceramente não me ocorre, que realmente não enxerguei, que juro que não ouvi, que não sei como fui esquecer.” Alex Castro

.: encasulada :.

dentro do casulo negro, minúsculo, sem mobilidade, visibilidade, sem ar.

não moro mais em mim, não aguento não-ser, por mais um dia.

deu no face que o vácuo tem mais força que tudo, até do que a própria força.
algo disse que por isso, lá fora só podia ser melhor.

explodo em fúria, abro o peito e a espinha. abro os braços para, talvez, romper a casca.
desfaço um pouco contra a parede, e depois de insistir, desfaço também com ela.
sinto que já não era mais só eu.

só que do vão lá de fora, não vem o que esperava.
demonstro tentativa de estancamanto, mas não tem nada de ação, não passa de ideia.
lama negra, viscosa, tóxica é o que me rodeia,
continua entrando no buraco que tento tapar casualmente, fechando os olhos.

deu no face que o vácuo tem mais força que tudo.
que a massa não tá com nada, só vale se tiver molho vermelho.
e não é o da ideologia.

com o passar do tempo, aprendi a mentir que talvez sempre tenha sido assim.

.: o mundo é seu espelho :.

Quando sair dessa casca, meu bem,
saberá que os outros são a imagem
refletida da mentira que você carrega.

Mude, e seu mundo mudará.

Possuir-se e render-se ao mesmo tempo.

Conhecer-se e dominar-se.

.: somos um :.

Não é possível que a vida seja só o
cínico shuffle de acontecimentos,
sem conexão ou propósito. 
Ai...  E aí que PAPOFT!

Fez-se o estrondo.

A danada da explosão foi tão grande que até hoje as pedrinhas estão rolando a milhão pelo universo afora, ad infinitum.

E nessa poeira cósmica mora um bonito buraco negro chamado Sagittarius A, que arrasta e organiza pelo menos duzentas bilhões de estrelas, o Sol, a Terra, você e eu.

E as histórias se aglutinam ou rasgam na puidez da colcha de retalhos, e eu não sei bem se quando enterro o que fez mal, acabo também enterrando a mim.































13 LÍNEAS PARA VIVIR
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
1. Te quiero no por quien eres, sino por quien soy cuando estoy contigo.
2. Ninguna persona merece tus lágrimas, y quien se las merezca no te hará llorar.
3. Sólo porque alguien no te ame como tú quieres, no significa que no te ame con todo su ser.
4. Un verdadero amigo es quien te toma de la mano y te toca el corazón.
5. La peor forma de extrañar a alguien es estar sentado …

.: carruagem :.

mais um domingo insone, como de praxe. o cigarro, eu e ocasionalmente você, nessas letras malucas que não precisam fazer sentido, até porque nunca foi esse o objetivo.

engraçado que a gente idealiza, idealiza e quando menos percebe... PIMBA! berenice, bateu.

estou feliz pela trama dos motivos banais. tantos e tão particulares que desataram mil nós em um segundo: não gostaria de estar em qualquer lugar do planeta senão aqui, sendo euzinha, agora.

Tá tudo estranho? Sim.

Mas tô amando. Mirando o céu e tendo em minhas mãos o fio que desfaz ou tece o vestido dos dias e noites

.: a flor e a náusea :.

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os…

.: canto de xangô :.

Eu vim de bem longe
Eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim
Sou filho de Rei
Muito lutei pra ser o que eu sou
Eu sou negro de cor
Mas tudo é só amor em mim
Tudo é só amor para mim
Xangô Agodô
Hoje é tempo de amor
Hoje é tempo de dor, em mim
Xangô Agodô

Salve, Xangô, meu Rei Senhor
Salve, meu orixá
Tem sete cores sua cor
Sete dias para a gente amar

Mas amar é sofrer
Mas amar é morrer de dor
Xangô meu Senhor, saravá!
Xangô meu Senhor!
Mas me faça sofrer
Mas me faça morrer de amor
Xangô meu Senhor, saravá!
Xangô Agodô!

.: persistência :.

bem amigos, já que escrever é inerente e tentar ser uma pessoa melhor é desafio de toda uma vida, cá estamos, resgatando as raízes e voltando ao eixo.

são 11 anos de blog, quase 15 anos de internet e aquele vão gigante entre o querer e o fazer continuou aumentando. é por isso que venho - com mais cara do que coragem, confesso - para dar aquela guinadinha positiva rumo ao encontro comiga.

ah, desisti.

.: DEZ anos de blog! :.

Gente... e quando cheguei aqui, eu era apenas "dezenoveanos".

.: ouça seu S2 :.

chegou definindo a forma do meu novo ser,
me forçando a desempenhar novos papéis,
que envolvam o minhas potencialidades.

com tudo diferente na vida, e ansiosa com os próximos passos,
não posso afirmar que eu sou a mesma pessoa.
E nem quero, viu?

lembrar o que realmente gosta,
seguir os instintos e realmente embarcar
no que SENTE ser seu caminho.

fluindo, de maneira natural,
diante das luminosas vontades


.: passado :.

engraçado como a gente muda
e as coisas ao nosso redor também,
automaticamente.

depois do inverno chega a primavera.
dá um certo arrepio de colher as flores...

bate a vontade de parar e observar mais um pouco,
tentar sentir o último gostinho daquele que agora que já não é mais.

mas a urgência impede
meu agora
é fui.

:: odoya ::

Estejamos prontos pra navegar
Estejamos prontos pra mergulhar

A vida é viagem
A vida é pra já

Odoya, Iemanjá

Estejamos prontos pra viajar
Estejamos prontos pro quer que seja

A vida é viagem
A vida é pra já

Odoya, Iemanjá

.: fosso :.

talvez sim, talvez não... a gente sabe como é
se fosse pensar que viver não é risco
já tinha mudado de nome
e sumido por aí.

mas acontece que não é só risco
viver é ponto, vírgula, Verbo.
livro escrito em conjunto,
materializando platonices de corações aflitos.

A esta altura apenas confesso que
se soubesse que o lago era fosso,

não tinha perfumado a nuca.

:: o (im)perceptível ::

subindo lentamente a pé a brigadeiro numa tarde cinzenta,
bolha no pé esquerdo e roupa de ontem.
domingo, ressaca, vinho.

aproximando-me do cruzamento,
visualizei perifericamente um mendigo
que se aproximava de mim.

como de costume,
pairei meu meu olhar através dele
como se não o enxergasse.

intimamente torci para que houvesse tempo
de atravessar a rua
e continuar minha vida
sem percebê-lo.

não deu tempo e o sinal fechou:
não havia mais como voltar atrás,
éramos somente ele e eu
parados na esquina;
eu sentindo seu olhar sobre mim.

eu continuava propositalmente imóvel
ele levantou seu indicador e
levemente tocou meu ombro.
"estou aqui, não finja", seus olhos me disseram.

retribuí desconcertada com o olhar,
meu honesto pedido de desculpas.

o farol abriu e ele seguiu adiante.
eu continuei aqui,
na esquina da auto-recriminação.
Aprenda a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar
de quem também gosta de você...

A idade vai chegando e, com o passar do tempo, nossas prioridades na
vida vão mudando...

A vida profissional, a monografia de final de curso, as contas a pagar.

Mas uma coisa parece estar sempre presente. A busca pela felicidade
com o amor da sua vida.

Desde pequenas ficamos nos perguntando "quando será que vai chegar?

E a cada nova paquera, vez ou outra nos pegamos na dúvida "será que é ele?".

Como diz o meu pai: "nessa idade tudo é definitivo", pelo menos a
gente achava que era.

Cada namorado era o novo homem da sua vida. Faziam planos, escolhiam
o nome dos filhos, o lugar da lua-de-mel e, de repente... PLAFT!

Como num passe de mágica ele desaparecia, fazendo criar mais
expectativas a respeito "do próximo".

Você percebe que cair na guerra quando se termina um namoro é muito
natural, mas que já não dura mais de três meses.

Agora, você procura melh…

:: paixonite ::

não sei se esse seu olhar que parece entender tudo
- ou o seu telefone sem furos-,
mas de alguma forma you've got me baby.


...e aonde foi mesmo que eu perdi o bom-senso e o humor ao me apaixonar por você?


nítido constrangimento de me deparar com tal situação
faz com que eu tenha vontade, mais uma vez,
de virar outra pessoa: aquela que te murcha e afasta.

porque vai dar merda, você sabe.

porque dói demais interpretar esta
que recebe seus afagos discretos
como se não importassem,
e só importam.

:: fim de caso ::

Int.: C7/9-

F7+ D7 Gm7
Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar
D#7+/E A7 Dm7
Há um adeus em cada gesto, em cada olhar
G7 C7/9 C7/9-
Mas nós não temos é coragem de falar
F7+ D7 Gm7
Nós já tivemos a nossa fase de carinho apaixonado
D#7+/E A7 Dm7
De fazer versos, de viver sempre abraçados
G7 C7/9 D7
Naquela base do só vou se você for
Gm7 C7/9 C7/9- F7+
Mas de repente, fomos ficando cada dia mais sozinhos
F#º Gm7
Embora juntos cada qual tem seu caminho
G7 C7/9 C7/9-
E já não temos nem coragem de brigar
F7+ D7 Gm7
Tenho pensado, e Deus permita que eu esteja errada
D#7+/E A7 Dm7
Mas eu estou, ah eu estou desconfiada
G7 C7/9 F7+ (C7/9-)
Que o nosso caso está na hora de acabar

:: vida real ::

Ela inseto, ele réptil.
Ele roots, ela geek.
Ela outono, ele verão.
Ele mudo, ela festiva.
Ela é dele. Ele nem sonha.

.: o salto :.

Ele era daquele tipo de homem que considera a recusa da cumplicidade como uma condição de erotismo.

Ela fora atingida em cheio (nunca soube ao certo o que amava naquele homem, fora a relação que ele propunha nas entrelinhas), mas acabou por sobreviver e acreditava realmente que pudesse tirar algum proveito daquele deserto.

Lidar com a imensa e oculta solidão de contar somente consigo mesma ressecava e empobrecia cada vez mais sua superfície de contato com a vida. O cabelo amarfanhou, as unhas escureceram e os dentes - últimos resquícios de dignidade - escapavam-lhe pela boca.

O tempo havia passado e toda aquela muralha que havia eficazmente construído com o intuito de fortaleza simplesmente a afastou das possibilidades do além-jardim. O verde florido do mundo externo ousava roçar a base de seus muros, mas nunca mais pôde hidratar suas raízes.

Pensava secretamente que quando não se pode contar com quem ama, não há mais ninguém a quem recorrer, mas... Afinal, o que é o amor? E se …
resolveu sumir. isso mesmo. sumir do mundo e da realidade que há pelo menos 20 anos chamava de sua. o mundo lhe vinha somente através dos jornais velhos que os vizinhos descartavam, e do barulho da rua.

nunca parou pra pensar no passado e de fato sentia que não tinha absolutamente qualquer vínculo com os dispositivos que usava para reconhecer suas emoções.

saiu em um dia chuvoso, depois de muito tempo. buscou um bar, um rosto ou qualquer momento que significasse qualquer coisa. a mesma cenografia, e apesar de os rostos serem outros, continham os mesmos olhares apáticos. apáticos como o seu.

correndo pelas ruas, escorregou no meio fio e sentiu claramente o ódio cegar-lhe e entalar em sua garganta. gritou e esmurrou um muro até cansar. enquanto vociferava, mordeu o lábio inferior. estava vivo, era óbvio, ao ver o sangue escorrer pela camisa branca. mas não sentia nada, a dor interior era infinitamente maior do que qualquer rasgo em sua carcaça.

- porra!

arfando, se deixou tomar pelo …

.: sambinha do desaforo :.

tirando em pratos limpos, neguinha
eu preciso desabafar
que amor é coisa bonita
e não dá pra maltratar

você podia fazer de tudo, neguinha
menos me desrespeitar (e tudo mais que tinha de bom)

sei que a gente já se estranhou muito
em tanto assunto que não dá pra contar

mas por conta de muita aguardente
você veio quente querendo brigar

tentei participar o meu lado
você se encheu de raiva e não quis ouvir

deu vexame na frente dos outros
matou de desgosto
até que sumi

:: o baixo astral ::

Enquanto dura o baixo astral, perco tudo. As coisas caem dos meus bolsos e da minha memória: perco chaves, canetas, dinheiro, documentos, nomes, caras, palavras. Eu não sei se será mau-olhado.
Pura casualidade, mas às vezes a depressão demora em ir embora e eu ando de perda em perda, perco o que encontro, não encontro o que eu busco, e sinto medo que numa dessas distrações, acabe deixando a vida cair.

eduardo galeano - o livro dos abraços

:: concordo que ::

fui cretina
quando ofereci a outro
o que prometi para você
(você descuidou, meu bem)

pra habitar meu coração
no mínimo, usucapião

:: blanco ::

Imagem
me vejo no que vejo como entrar por meus olhos em um olho mais límpido me olho o que eu olho é minha criação isso que vejo perceber é conceber águas de pensamento sou a criatura do que vejo
(Blanco, Octavio paz – tradução de Haroldo de Campos)

:: sinto muito ::

cada agora é uma nova memória,
e dentre todas as possíveis,
insiste em bater na mesma teclinha:
mesmo papelzinho amassado
com o rabisco da lembrança de quem sempre quis ser,
completamente diferente do que realmente é.

forçar a crer é diferente de conectar,
e eu sei, meu amor, o quão difícil é fingir
que ser é algo possível.

.: lucidez :.

A lucidez é um dom e um castigo. Tudo está na palavra. Lúcido vem de Lúcifer, o arcanjo rebelde, o demônio. Também chama-se Lúcifer a estrela d'alva (conhecida também por Vênus), a primeira estrela, a mais brilhante. A última a se apagar.

Lúcido vem de Lúcifer, e Lúcifer vem de lux e ferous, que quer dizer "o que tem luz, o gera luz". O que traz a luz que permite a visão interior.

Bem e mal, tudo junto. O prazer e a dor.

A lucidez é dor, e o único prazer que se pode conhecer - o único que parecerá remotamente com a alegria -, é o prazer da consciência da própria lucidez.
não sabe brincar,
não desce pro play

:: uébidesigner na rua augusta ::

uébidesainer da rua augusta

Ela espera e não desespera na rua augusta
Ela quer quem vier, quem trouxer, quem disser: quanto custa?
Ela sabe que os homens do bronx estão pra chegar
E em câmara lenta ela tenta esquecer no bar

Seu olhar inquieto vacila na Consolação
Seu corpo faceiro desfila na escuridão
Atravessa a rua sorrindo e nem olha pra trás
Porque trouxe consigo um black do Bira Vaz

Fim de mês é a hora e a vez de rever os parentes
Ela vai levando nas mãos milhões em presentes
Num instante se torna a mocinha do interio-oor
Num alguém com a pureza de quem nunca teve um amor

Como vai pergunta Mersão à irbãa queriiida
Ele quer saber como é que está sua vida
Ela diz que é muito feliz e mucho le gusta
Que trabalha como uébidesigner na rua Augusta 4x

Cesar Sampaio / ladybug

Tanto

Coveiros gemem tristes ais
E realejos ancestrais juram que
Eu não devia mais querer você
Os sinos e os clarins rachados
Zombando tão desafinados
Querem, eu sei, mas é pecado
Eu te perder

É tanto, é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto

Políticos embriagados
Dançando em guetos arruinados
E os profetas desacordados
A te ouvir

Eu sei que eles vem tomar
meu drinque em seu copo a trincar
E me pedir pra te deixar partir

É tanto, é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto

Todos meus pais querem me dar
Amor que he tempos não esta lá
E suas filhas vão me deixar
Por isso não me preocupar

Eu voltei pra minha sina
Contei pra uma menina
Meu medo só termina estando ali
Ela é suave assim
E sabe quase tudo de mim
Ela sabe onde eu
Queria estar enfim

É tanto, é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto

Mas seu dândi vai
De paletó chinês
Falou comigo mais de uma vez
Não, eu sei, não fui muito cortês
Com ele, não

Isso, porque ele mentiu,
Porque te ganhou e partiu
Por que o tempo c…

.: reflectere :.

re.fle.tir


1 Fazer retroceder (um corpo elástico), desviando da direção anterior. vtd e vpr

2 Espelhar(-se), representar(-se), retratar(-se): O espelho tudo reflete. "...esmaltam de vida (vilas, aldeias) o verde profundo dos vales... ese refletem nas águas tranqüilas dos lagos" (Silveira Bueno).

3 Exprimir, revelar, traduzir: "Os animais, fogosos e bem ajaezados, refletem a impaciência dos cavaleiros" (Francisco Marins).

4 Repetir, ecoar: Refletia a montanha o troar dos canhões.

5 Fís Desviar ou fazer retroceder segundo a lei da reflexão (os raios luminosos, caloríficos ou sonoros); retratar, defletir: O espelho reflete os raios luminosos. O prisma reflete a luz. 

6 Incidir, recair: A glória do insigne estadista reflete em seu povo. Vinha o terror refletir sobre todos os passageiros do avião. A prevaricação do chefe refletiu-se nos subordinados.

7 Repercutir-se, transmitir-se: Efeitos do que se faz na capital refletem no interior. O progresso paulistano reflet…

.: desiderata :.

Vá placidamente por entre o barulho e a pressa e lembre-se da paz que pode haver no silêncio, sem capitular, esteja de bem com todas as pessoas. Fale a sua verdade, calma e claramente; e escute os outros, mesmo os estúpidos e os ignorantes; também eles têm a sua história. Evite pessoas barulhentas e agressivas.
Elas são um tormento para o espírito.

Se você se comparar a outros pode tornar-se vaidoso e amargo; porque sempre haverá pessoas superiores e inferiores a você.
Desfrute suas próprias conquistas assim como os seus planos.
Mantenha-se interessado na sua própria carreira, mesmo que humilde; é o que realmente se possui na sorte incerta dos tempos.

Exercite a cautela nos negócios; porque o mundo é cheio de artifícios.
Mas não deixe que isso o torne cego à virtude que existe; muitas pessoas lutam por altos ideais e por toda a parte a vida é cheia de heroísmo.

Seja você mesmo. Principalmente não finja afeição nem seja cínico sobre o amor; porque em face de toda aridez e desencantam…

.: santo amaro :.

Imagem
SANTO AMARO
Luiz Cláudio Ramos / Franklin da Flauta / Aldir Blanc

Eu ia a pé da ladeira Santo Amaro
Até a Rua do Catete
Num sobrado onde você residia
E te levava prum passeio em Paquetá
Onde nasceu num piquenique
O nosso rancho, o Ameno Resedá

Verde, grená e amarelo, nossas cores
Resedá, vocês são flores como flor
Era a papoula do Japão
Tua rival saiu no Flor do Abacate
De destaque no enredo da Rainha de Sabá

Os lampiões, os vaga-lumes
Você triste, com ciúmes
Eu charlando, resmungando
Que melhor era acabar
Pobre farsante de teatro ambulante
Meu amor de estudante
Não soube representar
E o casamento aconteceu
Vieram filhos, muitos netos
Muitas dores, muitos tetos
Mas o amor a tudo isso ultrapassou

Hoje, sozinho, eu voltei feito andorinha
A Pedra da Moreninha, onde tudo começou
Olhando o mar, pensei na vida ao teu lado
Como um choro do Callado
Um piano de Nazareth
Saudade grande o dia inteiro
Mas com jeito de alegria
Do pandeiro, do Gilberto no Jacob
Pra cada dó um sol maior, um lá ser…

;: doçura :.

a cumplicidade que entrelaçou os milésimos de segundos em que nossos olhares se encontraram
foi o sinal que tanto esperava para assumir de fato que te queria.

contagiada pelo bater forte de seu coração,
fui munida de lábios trêmulos ao universo paralelo
da doçura que poucos podem sentir.

lá estava eu, me sentindo viva e apavorada,
achando graça da timidez dele ao olhar para mim.

lá estava ele, entalhando uma nova marquinha
na árvore dos ínfimos momentos doces.

.: estar sozinho :.

Tornei-me um homem da multidão.
Nunca confiei em mim próprio o bastante para estar sozinho.
Dia e noite caminhava lestamente através das multidões, acotovelando, agarrando-me ansioso a quem pudesse. Muitos pensavam que eu era ladrão.
Mas comprimia o meu corpo contra o corpo dos outros como uma criança se agarra à mãe durante uma tempestade. Procurava tapar os olhos à minha consciência como uma criança procura não avistar o relâmpago; esforçava-me por tapar os meus ouvidos mentais, como uma criança procura esconder-se no regaço da mãe para não ouvir o som dos trovões.

E se houvesse uma clareira nessa multidão, apressava-me, corria, os braços esticados, ansioso pelo toque do corpo de alguém, o meu próprio corpo ansioso pelo contacto fugaz. E sempre, sempre, entre a confusão e o ruído das passadas, tremia a ouvir esses passos constantes, inexoráveis.

Fernando Pessoa manuscrito, original em Inglês (1904-1908) 

.: meu cafofo :.

25 anos depois, hoje é o grande dia. Desde que me entendo por gente, esperei pelo momento que sairia de casa, da casa aonde se encontram os rascunhos originais de todas as pessoas que conheço por família. Histórias, sensações, objetos... tudo o que fui durante praticamente 16 anos da minha vida. Cada foto, rodapé, parede, piso quebrado. Eu sei de tudo, tudo. Eu senti tudo.

Na prática, percebi que, para (sobre)viver, preciso basicamente de uma bolsa que separei: com o notebook e a pasta de todos os documentos. Com isso, posso trabalhar, e ser gente, como pede a cartilha. Todas as outra coisas são apenas o elo paupável com tudo de mim que não quero esquecer.

Engraçado, depois de muito tempo, ter a sensação de sábado no quarto de casa, revendo 1/4 de século dentro desse universo dentro de quatro paredes. A sensação de ter que dar um jeito de guardar todas as lembranças na cabeça de uma vez só, para não ter que morar para sempre com os bilhetinhos, notas, borrachas, telefones, cartas, …

:: confissão ::

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
que se esfacelou na asa do avião.

(Carlos Drummond de Andrade)

sinto saudade da minha avó quando estou doente

me sinto frágil, pequena. triste, com dor, cansada. me ouço em um fiozinho de voz e não me identifico no meio de tudo isso. será que a persona desaparece quando fico doente?

queria um abraço, uma sensação quente que me fizesse sentir que tudo vai dar certo. uma respiração pra acalmar o meu coração tão doído. dói, dói, e eu tenho vergonha de publicar. será que vai ser dessa vez?

queria que você estivesse comigo, e simplesmente passasse a mão no meu rosto. queria que engolir o choro não fosse tão NECESSÁRIO. queria não te magoar, dizendo verdades que hoje só cabem a mim, porque sou a adulta e preciso entender que somos CONSEQUÊNCIA de uma vida de sofrimentos. queria SENTIR que você fez o melhor que pôde, dentro do cenário que sempre tivemos.

queria ser forte como digo que sou. fazer o meu próprio chá no meio de uma gripe, e não desejar que esse gesto de carinho fosse a resposta para todo o vazio que sinto.

queria não acreditar que estou que pedindo migalhas de atenção, enquanto espero…

.: das verdades que escoam pelas mãos :.

chega um momento em que é a hora de largar o lápis e aparar as arestas da própria linha de raciocínio. recortar e colar informações da vida não colabora mais tanto quanto deveria, e o eixo (aquela linha tênue entre expectativa e realidade) perde a forma, perde a trilha das migalhas de pão que foram jogadas justamente para que demarcar o caminho de volta.

a sabedoria não está somente em saber seguir, mas também em entender a importância de voltar. não no sentido de voltar atrás mas no de revisitar o lugar de origem, aquele segundo que explodiu a primeiro desejo de ir além e experimentar os novos sabores.

parei e repassei mentalmente todos os passos que me trouxeram até aqui, e percebi que nem todos os atalhos necessariamente pouparam ou encurtaram a minha caminhada. percebi também que os companheiros de caminhada podem ter o ritmo completamente diferente do seu, e o que importa mesmo é que nos dêem a esperança de que é possível chegar lá.

por hoje, decidi ficar por aqui. esperando os…

.: vizinho do 57 :.

Na minha rua, no 59
eu vivia alegre sem pensar na vida
Mas o vizinho do 57
debruçou no muro e me chamou: "querida"
deu-me o galho de uma trepadeira, um craveiro e
uma roseira pra plantar no meu jardim
depois pegando minha mão nervosa,
encostou coração e jurou gostar de mim

A trepadeira que eu plantei cresceu
tomou conta da varanda, carregando-se de flor
e eu também que não pensava em nada
só lembrando meu vizinho
carreguei de amor

Mas veio um dia pro 55
uma jovem linda, um abismo em flor
o meu vizinho do 57
foi falar com ela
e julhou-lhe amor
Deu-lhe também o galho roseira
e da mesma trepadeira
pra plantar no seu jardim
E eu chorando do 59
compreendi que o meu vizinho
não gostava mais de mim

a trepadeira que eu plantei murchou
morreu desiludida na ilusão de quem promete
e eu também senti  morrer no peito
o amor do meu vizinho do 57

Intérprete: Emilinha Borba
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(pelo cheiro de café e uvas maduras que pairavam nas manhãs despreocupadas, em que cant…

.: dor :.

entramos na sala gelada, cheirando a formol. o coveiro abre a geladeira, e ouve-se o baque surdo da maca no chão.

com o rosto de lado, reconhecemos o brinco, um pedaço dourado num corpo gelado, seco. a carcaça vazia, de uma pessoa que amamos, que conhecíamos. que até dois dias atrás era cheio de vida.

não foi uma morte surpresa, arrebatadora. foi uma morte chorada, pois assim merecia. lembranças de uma vida que se entrelaça à nossa e grava com o toque lúdico o que só os que amamos podem gravar.

.: porquês :.

Por afinal eu me pego novamente cutucando
com a agulha de tricô aquela ferida antiga,
vasculhando inescrupulosamente essa dor
que nem tenho certeza ser minha

Mesmo quando passado, não era presente.
Já não era bonito e nem era meu.
Por que, então?

Incansavelmente, repasso a mesma cena,
até sentir o chão rodar e o peito encher de mágoa.
Ranço por nunca optar por estar comigo,
cansaço por nadar em vão nos fatos rasos
que nunca preencheram
minha piscina de bolinhas coloridas.

.: é difícil ser leve :.

a seriedade é um vício, não uma virtude

te ensinaram a levar-se a sério bancando o adulto egoísta,
se afundando num escritório marrom
tentando alcançar o céu azul

a pompa, o texto pronto, o previsível é muito mais natural
do que lançar-se no salto do riso, erguendo-se
para o alegre esquecimento de si mesmo


é fácil ser pesado.

.: a menina dos fósforos :.

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.
Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda nã…

.: semear-se :.

Ir fundo dentro de si é ao mesmo tempo desorientador e bonito. Porque só lá no fundo é que a terra é mais fértil, pode-se plantar o que quiser, sem a preocupação com os olhares externos.

A constância da boa colheita vem com a observação e principalmente amor à terra semeada. Somos o íntimo, o potencial escondido dentro de uma matéria orgânica. Material esse que reflete a fome da nossa alma descuidada, viciada e dependente de sofrimentos embutidos nos imediatismos sociais.

.: os sapatinhos vermelhos :.

Era uma vez uma pobre órfa que não tinha sapatos. Essa criança guardava os trapos que pudesse encontrar e, com o tempo, conseguiu costurar um par de sapatos vermelhos. Eles eram grosseiros, mas ela os adorava. Eles a faziam com que se sentisse rica, apesar de ela passar seus dias procurando alimento nos bosques espinhosos até muito depois de o sol nascer.

Um dia, porém, quando ela vinha caminhando com dificuldade pela estrada, maltrapilha e com seus sapatos vermelhos, uma carruagem dourada passou ao seu lado. Dentro dela, havia uma senhora de idade que lhe disse que ia levá-la para casa, e tratá-la como se fosse sua própria filhinha. E assim foram para a casa da rica senhora. Lá o cabelo da menina foi lavado e penteado. Deram-lhe roupas de baixo de um branco puríssimo, um belo vestido de lã, meias brancas e reluzentes sapatos pretos. Quando a menina perguntou pelas roupas velhas, e em especial pelos sapatos vermelhos, a senhora disse que as roupas estavam tão imundas e os sapatos er…

.: saudade :.

saudade . [Do lat. solitate, 'soledade', 'solidão', pelo arc. soydade, suydade, poss. com infl. de saúde.] S. f.

1. Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia:
"Saudade! és a ressonância / De uma cantiga sentida, / Que, embalando a nossa infância, / Nos segue por toda a vida!" (Da Costa e Silva, Pandora, p. 83);
"E uma saudade de casa começou a me agoniar." (José Lins do Rego, Doidinho, p. 171)

2. Pesar pela ausência de alguém que nos é querido.

3. Bot. Designação comum a diversas plantas da família das dipsacáceas, principalmente da espécie Scabiosa maritima, e às suas flores; escabiosa, suspiro:

"E ela deu-lhe do seio uma saudade / Murcha, e no entanto bela" (Gonçalves Dias, Obras Poéticas, II, p. 98)

4. Bot. Planta da família das asclepiadáceas ( Asclepias umbellata).

5. Bras. Zool. V. assobiador (4).

6. Bras…

.:: entardeceu ::.

despedaçava
todas as noites
no canto do quarto
doído, solitário.

esperava
a qualquer momento
qualquer palavra
rouca, morna
dizendo qualquer coisa,
menos "é tarde demais"

.: parquinho :.

fora as lembranças cotidianas (a casa grande, o cheiro de tinta e principalmente a tonalidade do dia quando ia embora), sua primeira lembrança datava dos 4 anos de idade; e era a lembrança de uma frustração.

numa tarde de primavera, a professora ensinava a uma parte das crianças como fazer colares de flores ou folhas, para que ao terminar pudessem enlaçar um amiguinho preferido com ele.

uma após a outra, as crianças terminavam o colar e iam passá-lo em torno do coleguinha almejado. ao contrário dos outros, não avançava, as folhas arrebentavam-se, tudo destruía-se entre suas mãos.

como explicar-lhes que necessitava de amor? como, sem o colar de folhas?

começou a chorar de raiva, de solidão. a professora não veio ajudar-lhe. quando levantou os olhos, todos tinham ido, e a escola estava fechando.

.: a pessoa errada :.

Pensando bem
Em tudo o que a gente vê, e vivencia
E ouve e pensa
Não existe uma pessoa certa pra gente
Existe uma pessoa
Que se você for parar pra pensar
É, na verdade, a pessoa errada.
Porque a pessoa certa
Faz tudo certinho
Chega na hora certa,
Fala as coisas certas,
Faz as coisas certas,
Mas nem sempre a gente tá precisando
das coisas certas.
Aí é a hora de procurar a pessoa errada.
A pessoa errada te faz perder a cabeça
Fazer loucuras
Perder a hora
Morrer de amor
A pessoa errada vai ficar um dia sem
te procurar
Que é pra na hora que vocês se encontrarem
A entrega ser muito mais verdadeira
A pessoa errada, é na verdade,
aquilo que a gente chama de pessoa certa
Essa pessoa vai te fazer chorar
Mas uma hora depois vai estar
enxugando suas lágrimas
Essa pessoa vai tirar seu sono
Mas vai te dar em troca uma noite de
amor inesquecível...

(Luis Fernando Veríssimo)
acho que ainda estou bêbada

.: tudo :.

a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome

p. leminsky

.: petishco :.

próxima aquisição: as carpas que dizem "petisco".
10 dias depois, com cheiro de chá verde do banho,
a realização de que é assim mesmo, e tal e coisa.

beijo na bunda e até segunda.

.: suave é viver só :.

Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias.
A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só. Grande e nobre é sempre Viver simplesmente. Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode Dizer-te. A resposta Está além dos deuses.
Mas serenamente Imita o Olimpo No teu coração. Os deuses são deuses Porque não se pensam. 1-7-1916 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).   - 68.