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.: a flor e a náusea :.

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias, espreitam-me. Devo seguir até o enjôo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse. Em vão me tento explicar, os muros são surdos. Sob a pele das palavras há cifras e códigos. O sol consola os doentes e não os renova. As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. Vomitar este tédio sobre a cidade. Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. Nenhuma carta escrita nem recebida. Todos os homens voltam para casa. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem. Crimes da terra, como perdoá-los? Tomei parte em muitos, outros escondi. Alguns achei belos, foram publicados. Crimes suaves, que ajudam a viver. Ração diária de erro,...

:: blanco ::

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me vejo no que vejo como entrar por meus olhos em um olho mais límpido me olho o que eu olho é minha criação isso que vejo perceber é conceber águas de pensamento sou a criatura do que vejo (Blanco, Octavio paz – tradução de Haroldo de Campos)

.: santo amaro :.

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SANTO AMARO Luiz Cláudio Ramos / Franklin da Flauta / Aldir Blanc Eu ia a pé da ladeira Santo Amaro Até a Rua do Catete Num sobrado onde você residia E te levava prum passeio em Paquetá Onde nasceu num piquenique O nosso rancho, o Ameno Resedá Verde, grená e amarelo, nossas cores Resedá, vocês são flores como flor Era a papoula do Japão Tua rival saiu no Flor do Abacate De destaque no enredo da Rainha de Sabá Os lampiões, os vaga-lumes Você triste, com ciúmes Eu charlando, resmungando Que melhor era acabar Pobre farsante de teatro ambulante Meu amor de estudante Não soube representar E o casamento aconteceu Vieram filhos, muitos netos Muitas dores, muitos tetos Mas o amor a tudo isso ultrapassou Hoje, sozinho, eu voltei feito andorinha A Pedra da Moreninha, onde tudo começou Olhando o mar, pensei na vida ao teu lado Como um choro do Callado Um piano de Nazareth Saudade grande o dia inteiro Mas com jeito de alegria Do pandeiro, do Gilberto no Jacob ...

:: confissão ::

Não amei bastante meu semelhante, não catei o verme nem curei a sarna. Só proferi algumas palavras, melodiosas, tarde, ao voltar da festa. Dei sem dar e beijei sem beijo. (Cego é talvez quem esconde os olhos embaixo do catre.) E na meia-luz tesouros fanam-se, os mais excelentes. Do que restou, como compor um homem e tudo que ele implica de suave, de concordâncias vegetais, murmúrios de riso, entrega, amor e piedade? Não amei bastante sequer a mim mesmo, contudo próximo. Não amei ninguém. Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido – que se esfacelou na asa do avião. (Carlos Drummond de Andrade)

.: a pessoa errada :.

Pensando bem Em tudo o que a gente vê, e vivencia E ouve e pensa Não existe uma pessoa certa pra gente Existe uma pessoa Que se você for parar pra pensar É, na verdade, a pessoa errada. Porque a pessoa certa Faz tudo certinho Chega na hora certa, Fala as coisas certas, Faz as coisas certas, Mas nem sempre a gente tá precisando das coisas certas. Aí é a hora de procurar a pessoa errada. A pessoa errada te faz perder a cabeça Fazer loucuras Perder a hora Morrer de amor A pessoa errada vai ficar um dia sem te procurar Que é pra na hora que vocês se encontrarem A entrega ser muito mais verdadeira A pessoa errada, é na verdade, aquilo que a gente chama de pessoa certa Essa pessoa vai te fazer chorar Mas uma hora depois vai estar enxugando suas lágrimas Essa pessoa vai tirar seu sono Mas vai te dar em troca uma noite de amor inesquecível... (Luis Fernando Veríssimo)

.: amar sem temer :.

das sensações mais esquisitas, é essa: soco no estômago com fiozinho gelado pela espinha. confiar ou não, deixou de ser a questão. repasso mentalmente palavras que nunca foram minhas. sensação de verão quente, num tapa de vento no rosto; toca o alarmezinho constante: "não se meta onde não deve". pergunta que nunca cala: será que algum dia saberemos amar sem temer?

.: torna-te quem tu és :.

tudo se desfaz tudo é refeito tudo morre, tudo refloresce tudo se separa, tudo volta a se encontrar o meio está em toda parte o curvo é o caminho da eternidade torna-te quem tu és Nietzsche