3 de Junho de 2009

das verdades que escoam pelas mãos

chega um momento em que é a hora de largar o lápis e aparar as arestas da própria linha de raciocínio. recortar e colar informações da vida não colabora mais tanto quanto deveria, e o eixo (aquela linha tênue entre expectativa e realidade) perde a forma, perde a trilha das migalhas de pão que foram jogadas justamente para que demarcar o caminho de volta.

a sabedoria não está somente em saber seguir, mas também em entender a importância de voltar. não no sentido de voltar atrás mas no de revisitar o lugar de origem, aquele segundo que explodiu a primeiro desejo de ir além e experimentar os novos sabores.

parei e repassei mentalmente todos os passos que me trouxeram até aqui, e percebi que nem todos os atalhos necessariamente pouparam ou encurtaram a minha caminhada. percebi também que os companheiros de caminhada podem ter o ritmo completamente diferente do seu, e o que importa mesmo é que nos dêem a esperança de que é possível chegar lá.

por hoje, decidi ficar por aqui. esperando os bons ventos que tragam as passadas firmes e decididas que me levem aonde eu mereço estar.

31 de Maio de 2009

doçura

a cumplicidade que entrelaçou os milésimos de segundos em que seus olhares encontravam-se foi o sinal que tanto esperava para assumir de fato que o queria.

contagiada pelo bater forte de seu coração, fui munida de lábios trêmulos ao universo paralelo da doçura que poucos podem sentir.

lá estava eu, me sentindo viva e apavorada, achando graça da timidez dele ao olhar para mim.

lá estava ele, entalhando uma nova marquinha na árvore dos ínfimos momentos doces.

27 de Maio de 2009

Ele era daquele tipo de homem que considera a recusa da cumplicidade como uma condição de erotismo.

Ela fora atingida em cheio (nunca soube ao certo o que amava naquele homem, fora a relação que ele propunha nas entrelinhas), mas acabou por sobreviver e acreditava realmente que pudesse tirar algum proveito daquele deserto.

Lidar com a imensa e oculta solidão de contar somente consigo mesma ressecava e empobrecia cada vez mais sua superfície de contato com a vida. O cabelo amarfanhou, as unhas escureceram e os dentes - últimos resquícios de dignidade - escapavam-lhe pela boca.

O tempo havia passado e toda aquela muralha que havia eficazmente construído com o intuito de fortaleza simplesmente a afastou das possibilidades do além-jardim. O verde florido do mundo externo ousava roçar a base de seus muros, mas nunca mais pôde hidratar suas raízes.

Pensava secretamente que quando não se pode contar com quem ama, não há mais ninguém a quem recorrer, mas... Afinal, o que é o amor? E se fosse apenas uma bandeira rota que insistem em levantar como isenção da responsabilidade de assumir a sua vida por completo? Não se perdoaria em repetir essa fraqueza. Ela era a fortaleza, e morreria sendo.

Até o dia em que um (des)conhecido fez uma gentileza qualquer e a ela atinou que passou anos de sua vida co-existindo com o espectro de sua falecida idéia de vida.

Uma delicadeza qualquer, que passaria batida em qualquer outra situação, com qualquer outra pessoa. Mas era ela. E do alto de sua torre seca, subitamente nasceu a deliciosa vontade de pular, de se deixar morrer, pelo menos uma vez.

Morrer para renascer, para tornar-se qualquer outra forma. Para morrer quantas vezes necessário, e nunca mais embalsamar-se.

13 de Abril de 2009

o ciclo recomeça, e é a hora de abrir e entortar o bambolê, pra não fechar mais. pra não começar tudo de novo.

quanto mais treino para manter o ritmo mais clara fica a consciência dos fractais que remontam a amazônia quando cozinho brócolis, que me jogam no fracasso quando insisto em fazer comigo mesma as mesmas coisas de sempre.

23 de Março de 2009

vida real

Ela inseto, ele réptil.
Ele roots, ela geek.
Ela outono, ele verão.
Ele mudo, ela festiva.
Ela é dele. Ele nem sonha.

11 de Fevereiro de 2009

resolveu sumir. isso mesmo. sumir do mundo e da realidade que há pelo menos 20 anos chamava de sua. o mundo lhe vinha somente através dos jornais velhos que os vizinhos descartavam, e do barulho da rua.

nunca parou pra pensar no passado e de fato sentia que não tinha absolutamente qualquer vínculo com os dispositivos que usava para reconhecer suas emoções.

saiu em um dia chuvoso, depois de muito tempo. buscou um bar, um rosto ou qualquer momento que significasse qualquer coisa. a mesma cenografia, e apesar de os rostos serem outros, continham os mesmos olhares apáticos. apáticos como o seu.

correndo pelas ruas, escorregou no meio fio e sentiu claramente o ódio cegar-lhe e entalar em sua garganta. gritou e esmurrou um muro até cansar. enquanto vociferava, mordeu o lábio inferior. estava vivo, era óbvio, ao ver o sangue escorrer pela camisa branca. mas não sentia nada, a dor interior era infinitamente maior do que qualquer rasgo em sua carcaça.

- porra!

arfando, se deixou tomar pelo vazio, e as coisas voltaram a ser como era: a velha porta de madeira com vidro floreado, o chão surrado e pintado das velhas ceras vermelhas. chegou cambaleante até o carro coberto das carcaças adocicadas de flores amarelas.

o espaço começou a parecer impessoal. de alguma forma, pareceu surpresa quando o cachorro lhe recebeu latindo. sempre imaginou que sua vida seria em outro lugar, e tudo que havia reunido em sua vida era somente consequência daquela espera.

fitou a porta do lugar que chamava de casa, e viu os esperançosos anos se transformarem efêmeros momentos, nem sempre bons, nem totalmente ruins. era aquele oco. sempre.

despiu-se no corredor, a mancha de sangue da caminha marcando o chão até seu quarto. vestiu uma roupa florida que considerava absurdamente ridícula. agarrou uma garrafa de vinho vagabundo que ganhou no último natal e tomou em goladas imensas, como se estivesse com toda a sede do mundo. o doce agressivo do vinho aguado e o álcool imobilizavam aos poucos suas pernas, e o desejo de fugir não passava de uma idéia distante.

acordou com uma dor de cabeça lancinante, foi até o corredor, pegou o jornal do dia anterior e se segurou para não gargalhar de desespero.

3 de Novembro de 2008

Hosróscopo

"A vida gosta de você quando você gosta dela. A vida é o que você fizer dela, pois esta já era antes de seu nascimento e continuará sendo depois de você falecer. Por isso, aproveite cada instante como se fosse o derradeiro."

Valeu! Tô curtindo, tô curtindo

será que isso é vinho mesmo?

insônia, mais uma. dessa vez, e ao contrário do motivo comum: o silêncio. Na minha casa, os carros passam loucamente pela janela a noite inteira. freiadas, roncos de motor e músicas de gosto duvidoso visitam meu meio sono até que eu vença pelo cansaço ou acorde para observar o nada - ou o eterno movimento da cidade. ela nunca dorme. nem eu.

desde que perdi a aliança, estou com uma sensação de pendência comigo mesma, com a necessidade de explicar-me o que está acontecendo.

fiquei triste em perdê-la, principalmente por que era de ouro branco. ao mesmo tempo feliz, por que a ganhei de um ex-namorado que apesar de muito importante para a época, não existe mais na minha vida, e o bom-senso diz que eu deveria tê-la eliminado de minha rotina há quase 10 anos atrás.

triste por que era de ouro branco, e era dele. e ele era parte do que eu acreditava ser em mim o pedaço vivo de amor e desejo, o que um dia nutri por ele.

feliz em descobrir que existem cacarecos e energias que a gente insiste em carregar supondo que possam substituir ou prolongar sensações que já não podem ser repetidas. também por saber - após essa perda -, percebo que por detrás do nada de cada noite há um grande universo de estrelas - e é aí que está a mágica da existência dessas sensações: a volatilidade e significância de de cada segundo de felicidade.

agora sem ela, ele de fato deixou de existir - e não há 10 anos atrás, quando de fato aconteceu. e pela primeira vez sei que o amor que tenho para o mundo (e principalmente para mim) são infinitamente mais valiosos do que o ouro branco, e não pode ser perdido.

beeelo template!

e nem de verde eu gosto :}

pimba!

mais um domingo insone, como de praxe. o cigarro, eu e ocasionalmente você, nessas letras malucas que não precisam fazer sentido, até porque nunca foi esse o objetivo.

Engraçado que a gente idealiza, idealiza e quando menos percebe... PIMBA! Bateu.

Estou feliz por trama de motivos banais. São tantos e tão particulares que desataram mil nós em um segundo: não gostaria de estar em qualquer lugar do planeta senão aqui, sendo euzinha, agora.

Está tudo estranho? Sim. Mas estou com a sensação de que tudo pode passar batido (como sempre), ou de que tenho mais uma vez a meu favor o poder de puxar a linha que desfaz ou tecer novamente o novelo puído do meu filme.

há! compartilhei.